Fernando Moura: o compositor

Fernando Moura: o compositor


CAPA_CD_FERNANDO_MOURA_NOS_MEUS_BRACOS_FINAL.cdrFernando Moura lança Nos Meus Braços, álbum que tem participação de 30 músicos do Brasil e do Exterior e conta a espera de 14 anos pela filha

A chegada de um filho muitas vezes é fonte de inspiração significativa para artistas de diferentes épocas conceber, em paralelo, uma obra artística. Mas a confirmação de gravidez após 14 anos de sonhos e tentativas seguramente não poderia caber em um tema só. É assim que o pianista, compositor e arranjador Fernando Moura apresenta o oitavo CD de sua carreira, Nos Meus Braços, em que celebra o nascimento de sua filha.

Seguindo a prática da composição diária inerente à sua especialidade em trilhas sonoras, Moura apresenta no novo álbum  uma seleção feita a partir de mais de oitenta ideias alinhavadas durante os três primeiros meses de gestação de Maria Fernanda. “O disco é uma celebração à poesia do nascimento e da infância”, diz Moura, o definindo como coleção de músicas infantis instrumentais para adultos. “Quando se fala em música instrumental, uma das primeiras ideias que surge é de virtuosismo e outras coisas mirabolantes. Mas, neste trabalho, preferi trocar os solos elaborados pela delicadeza, pelo riso e pelo brinquedo”, conta ele.

A partir da confirmação, as canções selecionadas passaram a ser trabalhadas e para cada uma delas foram convocados músicos de importância especial na trajetória musical de Moura. Assim, Nos Meus Braços ganhou elenco luxuoso de trinta músicos, do Brasil e de outros países, que nem sempre precisaram estar juntos – uma cortesia das trocas de arquivos via web administradas a partir do estúdio TudoPiano, de Moura, no Rio de Janeiro. Na faixa “Viva a Natureza”, por exemplo, a voz de Claudia Oshiro sai de Okinawa para dialogar com o duduk do especialista em sopros Zé Nogueira, enquanto “Pássaros na Montanha” tem o fluegelhorn do cubano Luis Valle em encontro com a percussão afro de Carlos Negreiros. Na mesma direção, a guitarra “nova baiana” de Davi Moraes brinca e dialoga com o MiniMoog de Fernando e com o suingue de elefantes e sapos sampleados para “Animais em Festa”.

O diálogo criativo leva a resultados surpreendentes em canções como “Vai Chegar”, parceria de Fernando com o poeta Abel Silva: nela, o inesperado ocorre no encaixe perfeito entre o cavaquinho de Henrique Cazes e o violoncelo de Alceu Reis mediados pelo piano acústico de Fernando. “É uma melodia quase beatle”, diz Fernando Moura, que sabe do que fala – ele teve há alguns anos uma marcante colaboração com George Martin. A festa continua com as  contribuições da percussão de Ary Dias (A Cor do Som), Marcos Suzano e Jovi Joviniano, os sopros de Carlos Malta,  Mauro Senise, Humberto Araújo e Andrea Ernest Dias, as cordas “populares” de Luiz Waack, Sergio Chiavazolli e João Castilho e as “eruditas” de Bernardo Bessler e Ronaldo Diamante, entre outros vários músicos de igual talento.

 

 

Como a chegada de um filho influenciou sua vida como artista?
Isso é muito profundo. Sou casado com a mesma mulher há 17 anos e minha vida mudou muito depois que nos conhecemos. Durante 14 anos, havia esse desejo, essa vontade, de que nosso amor se transformasse em um filho, que  a gente pudesse ter um fruto desse amor, que ele pudesse continuar. Me entristecia muito essa impossibilidade. Fizemos diversas tentativas, mas nunca houve um diagnóstico. Isso era uma lacuna enorme na minha vida. A gente nunca entrou nessa de se culpar. Tinhamos a esperança de que o problema pudesse ser resolvido. Quando chegou a notícia de que minha esposa estava grávida, eu, particularmente, estava tentando esquecer desse assunto,  o máximo que podia. Afinal, não é todo mundo que precisa ser pai. Sou feliz em minha carreira, vivo de fazer aquilo de que eu  gosto e sei fazer… Enfim, todos aqueles clichês de auto-ajuda (risos). Mas quando vi o ultrassom com aquela pessoinha, quando escutei aquele coraçãozinho batendo, gravei no celular, tudo mudou. Sampleei e coloquei no Ableton Live para fazer uma batida e comecei a tocar em cima! Todo o esforço que eu estava fazendo para me ajustar a uma situação mudou. É uma alegria imensa, que eu nunca saberia descrever em palavras. A melhor maneira de dizer o quento fiquei feliz e o quanto isso foi importante realmente foi gravar o disco, com 30 músicas e todos aqueles músicos maravilhosos que me honraram e me homenagearam com a presença. E, principalmente, a maneira e o amor com que todos fizeram. Não foi uma gravação  burocrática, “vamos dar uma força pro cara”… Não foi isso. Todos são amigos e sabiam da importância que teria a chegada de nossa filha. Acredito que a música desse disco é diferente da de outros que já fiz. É mais melódica, em que tenho menos preocupação em mostrar “nossa, como eu sou bom” (risos).

fernando-mouraComo foi feita a escolha dos músicos?
Quando soube que minha esposa estava grávida, a cada dia sentava ao piano ou vinha ao estúdio e fazia um esboço, compunha uma música. Trabalho muito com trilhas sonoras, então tenho muita facilidade para compor músicas curtas, de um minuto, um minuto e meio, que é mais ou menos o formato em que a gente envia as trilhas para as emissoras de TV. Então, para mim, isso é uma coisa muito fácil, quase que automática, natural. Eu acabava de estudar, fazia minhas escalas e ficava no piano ou vinha para os teclados e compunha algo, todos os dias. Durante os dois primeiros meses, a gente não podia falar muito, ficava torcendo para dar tudo certo. Ninguém sabia da gravidez e eu ficava compondo. Quando cheguei a oitenta temas, a gravidez se confirmou. Aí, selecionei as trinta  ideias que achava mais promissoras e passei a trabalhar cada uma delas. Aumentei algumas, orquestrei outras. Para cada uma dessas ideias, pensava quem seria o músico que poderia participar daquela faixa. Quem seria a pessoa, não  apenas o instrumentista. Que pessoa poderia contribuir musicalmente com aquela faixa. Geralmente tento fazer, mesmo em meus trabalhos comerciais,  mais ou menos isso. Eu penso: “quem seria o baixista ideal nesse arranjo? Seria o Jamil. Como o Jamil mais ou menos tocaria isso?”. Então, já monto a coisa pensando no cara que vai tocar, porque minha relação é muito pessoal. Então, em cada uma das faixas, eu ia pensando quem seria o  onvidado.  E de todos os que convidei, apenas dois não puderam aceitar. Considero esse o maior prêmio que um músico pode ter: a consideração dos colegas!

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