Daniel Latorre – o coração do Hammond Grooves

Daniel Latorre – o coração do Hammond Grooves


9856926913_3617b762ca_oO organista Daniel Latorre é o coração do Hammond Grooves, grupo formado por ele, pelo baterista Wagner Vasconcelos e pelo guitarrista Filipe Galadri, que resgata a sonoridade e as levadas características do Hammond B3 ao mesmo tempo que incorpora possibilidades, ritmos brasileiros e diversas influências ao formato “Organ Trio”

Organista e pianista, nascido em São Paulo, Daniel Latorre desde jovem estudou piano erudito com importantes pianistas e professores no Brasil como Prof. Lucia Latorre. , Prof. Lina Pires de Campos e Flávio Varani. e a Prof e pianista Maria Thereza Russo (Magdalena Tagliaferro).

Começou sua carreira na música popular ainda adolescente tocando em Pubs e Clubes de São Paulo. Latorre estudou órgão com o organista de Blues Norte Americano Sr. Deacon Jones, aluno de Jimmy Smith ( Deacon foi band Leader e organista de John Lee Hooker, Freddie King e muitos outros). Conheceu diversos organistas norte americanos e recebeu instruções de Jimmy Smith a Reuben Wilson.

Entre gravações, participações e Shows tocou com : Ian Paice (Deep Purple) Andy Summers (Police), Deacon Jones, Eddie C. Campbell; Paulo Zinner, Caetano Veloso, Rita Lee, Sepultura, Paralamas do Sucesso, Marcelo Belloto , Lee Marcucci, Luiz Carline (Tutti-Frutti), Beto Lee, Rolando Castello Jr, André Moraes, Marcos Ottaviano, Dany Vincent, André Matos, Dada Cirino, Bina Coquet, Big Chico, André Christovam, Tutti Baê, Boccato, Graça Cunha, Frejat, Titãns, Bi Ribeiro, P.A e Fernando Deluqui (RPM), Faíska e muitos outros.

O nome da banda HAMMOND GROOVES foi inspirado nos grandes organistas e o seu repertório soul/jazz que mudou a história da música. Entre eles Jimmy Smith, Jack McDuff, Dr. Lonnie Smith, Reuben Wilson, Big John Patton, Melvin Rhyne, Larry Young, Walter Wanderley e Jimmy McGriff .

Usando esta linguagem musical, o HAMMOND GROOVES cria seus prórpios temas mesclado o jazz com ritmos brasileiros: maracatú, samba, baião, frevo e etc, como nas músicas Samba na Rede, Funktaztic, Água de Coco, Payperview, Varanda e Chá-com-bolo.  Nas apresetações, além das autorais, interpreta músicas conhecidas nesta inusitada formação chamada de “organ trio” (órgão Hammond, bateria e guitarra).

12815674975_11b826e32f_oO que chamou sua atenção quando conheceu o Hammond?
Muita coisa… Eu curtia rock and roll, que já tinha o Hammond presente: Deep Purple, Focus, ELP, todo mundo usava. Era o único “teclado” disponível, até mesmo antes dos synths. O primeiro disco do YES tem um dostimbres de Hammond mais bonitos que já ouvi. Aí associei o instrumento à sonoridade. Mas há uma coisa técnica – que eu não sabia na época e só depois fui entender – que me fascinou: o sustain infinito…(risos). Para um pianista, o sustain infinito é algo surreal. Você toca uma nota e ela nunca vai acabar (risos). Isso possibilitava outras coisas, uma expressividade maior, um jeito diferente de me expressar. E eu me encontrei e decidi que tinha que aprender a tocar.

Como foi esse aprendizado?
É até hoje! (risos) Não parei. A cada dia eu aprendo uma coisa com o Hammond, seja uma possibilidade ou uma sonoridade. Me acho muito aluno, sempre. E cada dia descubro um negócio com os caras com quem eu toco, que me mostram possibilidades musicais diferentes. Então, continuo aprendendo. Comecei autodidata, porque não havia realmente quem ensinasse esse estilo de Hammond que toco. Na época, muitos organistas que ficaram famosos na década de 1970 não estavam mais vivos. E os que estavam tocavam em outro estilo, que não era o que eu queria. Então, nem cheguei neles, nem conhecia…Fui conhecer alguns mais tarde, como o Renato (Mendes), mas era outro estilo que não me interessava. Eu ia atrás dos caras que vinham de fora. Eu era moleque e ficava enchendo o saco, até que os caras falavam: “vou dar uma chance pra esse cara, vem cá, isso aqui funciona assim, entendeu? Tchau”. Eu ficava com aquilo na cabeça e não tinha onde praticar. Descobri que eu tinha que ter um órgão Hammond para poder estudar. E isso levou anos. Não havia os clonewheels, como o SK-1 , XK-3 e SK-2. Nem mesmo de outras marcas.

De que ano é seu Hammond? Como conseguiu esse instrumento?
Do último ano de fabricação, 1974. Este órgão me achou (risos). Fui fazer um festival de jazz em Asunción, e lá os Hammonds praticamente morreram. Só importavam órgãos para igrejas. Manoel Bernardes, locutor, celebridade da mídia, que nos levou para fazer o show lá, trabalhava em uma rádio. E havia, encostado numa parede do estúdio, este B3. Não estava funcionando há 25 anos. Vamos pôr para funcionar? Nada! Um tempo depois, voltei e fiz uma proposta para o dono. Comprei o instrumento e fiquei cinco anos restaurando, porque estava em péssimo estado. Demorou bastante, gastei bastante, mas hoje ele está aqui e faz o que foi feito pra fazer.

Como é a manutenção?
O grande lance não é a manutenção. A manutenção é baixa, mas a restauração é cara. Ele em condição de concerto, ou seja, em perfeito estado, requer manutenção baixíssima, apesar de ele ser valvulado. O difícil é chegar no perfeito estado. Se for carregado de um lado para outro, requer cuidado maior. Mas se for colocado em uma casa ou estúdio, pode deixar ele lá, porque é pau-pra-toda-obra. Isso não estraga! Existem Hammonds fabricados em 1940 que  uncionam até hoje, com  pouca manutenção. É uma máquina maravilhosa! Foi feito para durar, coisa que não existe mais em instrumentos musicais. Era outra época.

 

De uns 15 anos para cá, ou um pouco mais, o interesse pelo Hammond cresceu, assim como pelas sonoridades vintage. É uma busca por uma sonoridade mais real? 
Sim, mas o Hammond, na verdade, nunca morreu. Se pegarmos a indústria da música, não de instrumentos musicais, ele sempre esteve presente, ora mais, ora menos, mas nunca saiu de cena. O que saiu de cena foi, na prática, ter que levar um instrumento de 350 quilos. Isso realmente é um problema, se você pensar que um guitarrista leva um pequeno amplificador e o organista tem que levar uma Leslie de 90 quilos. Então, começou a ficar desinteressante para levar um Hammond para a estrada, a não ser que haja uma boa estrutura para isso. O  mesmo aconteceu com os sintetizadores. O retorno disso se deu à exaustão nos workstations. Tem som de tudo, até de avião (risos). É legal pra caramba, mas, conforme você vai tocando, descobre que não há identidade sonora. Todo mundo soa igual. Por mais que o músico toque bem, vai ser apenas a técnica mecânica que vai sobressair. Aí, ele começa a sentir necessidades. Senta em um piano e fala: “nossa, como soa diferente”. Senta em um Rhodes, “putz!”. Ao mesmo tempo, alguns teclados são eternos, como, por exemplo, o DX7, o Prophet, o Moog. Não há como fugir deles em termos de sonoridade. Há variações sobre elas. E o Hammond está entre eles. Imagine que loucura era criar esses instrumentos e, hoje, tudo estar condensado em bits e bytes com tecnologia insuficiente para reproduzir aquilo tudo… Chegou à exaustão. Não acredito que deva ser radical: uma coisa é referência e outra coisa é a tecnologia. Se o músico souber trabalhar com os dois, ele tem o melhor dos mundos. O que discuto muito é que a galera perdeu a referência. E isso é muito triste, porque quem não tem referência aceita qualquer coisa. Tendo referência, o público que ouve fica mais exigente, assim como quem toca. E a tecnologia está aí a nosso serviço, então tem que abraçar essa exigência. Essa volta é fantástica porque exige que os fabricantes de instrumentos
sejam mais exigentes.

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